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19 de Julho de 2016, 22:42

Se polarizar e houver tempo hábil, vai dar PT X PSDB novamente no segundo turno.

A última pesquisa do Datafolha em São Paulo publicada semana passada mostrou algo curioso: 3 candidatos “do PT” liderando a pesquisa de intenção de voto (no cenário onde Russomano não é candidato). Marta (ex-prefeita pelo PT em 2001 e 2004) tem 21% das intenções de voto, Erundina (ex-prefeita pelo PT em 89 a 92, agora PSOL) com 13% e Fernando Haddad (atual prefeito pelo PT) com 11%. Essa pesquisa apresenta a contradição de mostrar que em São Paulo, conhecido por seu antipetismo e conservadorismo, observamos um levante de candidatos ligados historicamente ao partido dos trabalhadores.

Isso pode levar a alguns diletantes (no sentido weberiano dessa palavra) a acreditarem que teremos um possível segundo turno entre candidatos de esquerda (vai, por mais que Marta esteja no PMDB, ela ainda guarda seus traços de esquerda, ou não?) na disputa pelo Palácio do Anhangabaú, sobretudo na hipótese de saída de Russomano (que está na mão do STF, por conta da lei da ficha limpa). Entretanto, observando o contexto dessa eleição mais de perto podemos analisar que essa possibilidade na verdade é menor do que esses dados atualmente apontam.

Com base em uma análise contextual mais ampla é possível observar cinco fatores que podem apontar para uma grande probabilidade de termos PT e PSDB no segundo turno novamente, a exemplo do que ocorreu em duas das últimas três eleições paulistanas:

1- PT e PSDB possuem mais tempo de TV/Rádio

Dória e Haddad terão mais tempo de TV e Rádio. Com a diminuição do programa eleitoral fixo (para apenas 10 minutos diários), os spots eleitorais (as inserções no meio da programação de TV) terão potencialmente ainda mais influência no eleitorado. Dória, terá o maior tempo: serão quase 13 minutos de inserções diárias para Dória na TV (ou seja, 26 spots de 30 segundos pintando em cada canal) e 3 minutos de programa de no horário fixo (almoço e noite). Haddad, provavelmente terá por volta de 10 minutos diários de spots (cerca de 20 spots diários de 30 segundos) e 2 minutos e meio de programa. A soma desses dois candidatos representa cerca de 55% do total do tempo de campanha na TV/Rádio.

Marta, com 5 minutos diários de spots (cerca de 10 spots) aparece em terceiro lugar nesse quesito. Situação pior é de Russomano, que hoje lidera, que provavelmente terá apenas 4 spots diários em cada canal, ou seja, Dória terá quase 7 vezes mais spots que Russomano. Do outro lado, Erundina, que aparece à frente de Haddad, terá apenas 1 spot diário, ou seja, o atual prefeito terá 21 vezes mais spots que a candidata do PSOL e também terá o dobro de spots de Marta. Não resta dúvida que em termos de fluxo de informações geradas os candidatos do PT e PSDB levam ampla vantagem em relação aos demais candidatos. Se polarizar, vai sobrar pouco espaço de argumentação para os outros imporem uma agenda na campanha.

2- O poder da incumbência

O governo Haddad é mal avaliado e isso se reflete em uma baixa intenção de voto. Mas não se enganem com a baixa avaliação de governo de Haddad com 14% de Ótimo/bom. Ter o governo na mão faz diferença, mesmo quando o governo está mal avaliado. De forma geral, os governantes tendem a aumentar a avaliação de governo durante a campanha eleitoral, mais do que isso, governos com baixa avaliação tendem a melhorar mais a sua aprovação do que governos com melhor desempenho. Em outro post demonstrarei isso melhor.

Além disso, Erundina e Marta roubam muitos votos de Haddad hoje- Ver tabelas à seguir. Mesmo entre aqueles que aprovam o atual prefeito apenas 41% (no cenário com Russomano) e 48% (no cenário sem Russomano), votam em Haddad. Historicamente essa taxa de transferência do Ótimo/Bom em voto para o incumbente gira em torno de 60% a 70% (em breve mostrarei isso também). Entretanto, com o começo da campanha, é possível que Haddad ative a predisposição desses eleitores votarem no atual governo.

Avaliação da Adm. Haddad X Cenário com Russomano (%)

Fonte: Datafolha 12 e 13/07/2016

Avaliação da Adm. Haddad X Cenário sem Russomano (%)

Fonte: Datafolha 12 e 13/07/2016

3- Existe potencial de crescimento de um candidato de oposição – Dória leva vantagem.

Se olharmos o cruzamento entre avaliação de governo Haddad com intenção de voto veremos que justamente os eleitores que reprovam a atual administração municipal (os 48% que avaliam como Ruim/Péssimo) que mais declaram estar indeciso ou votar em branco/nulo (tanto no cenário com ou sem Russomano)- Ver tabelas acima. Com maior desconhecimento e tempo de TV, Dória se mostra ( teoricamente) como o candidato com maior potencial de crescimento dentro desse público que reprova Haddad, sobretudo se Russomano não for candidato. Dória já dá sinais dessa tendência, tendo em vista que é justamente entre aqueles que rejeitam Haddad que ele obtém o maior percentual de intenção de votos.

4- Voto de Marta e Russomano é em ampla medida recall e eles tem pouco potencial de crescimento durante a campanha.

Tanto Marta quanto Russomano são amplamente conhecidos do eleitorado paulistano. Isso limita o potencial de crescimento desses candidatos. Marta cresceu desde a última pesquisa, mas Russomano caiu desde novembro de 2015 de 34% para 25% (provavelmente, por conta das denúncias de corrupção que hoje podem levar a cassação de sua candidatura), patamar idêntico ao que tinha na mesma época em 2012. Marta parece ter herdado parte dos votos de Russomano, passando de 13% para 16% (no cenário com Russomano), o que nos leva a crer que hoje são bem citados por que representam os nomes estabelecidos na memória dos eleitores (recall). Mas com pouco tempo de TV, a experiência nos mostra que candidatos dependem apenas de recall tendem a desidratar. Russomano que o diga: na eleição passada também apareceu com grande destaque, mas sucumbiu durante a campanha e não chegou ao segundo turno.

Ademais, Marta já vem perdendo eleitorado há algum tempo se compararmos o seu desempenho atual com eleições anteriores. Em julho 2000 (quando ganhou), segundo o Datafolha, ela tinha 31%, em 2004, quando prefeita (e perdeu) tinha em agosto de 2004 cerca 30%, em 2008, quando disputou com Kassab, chegou nesse mesmo período a 36%.

Marta ainda é mais consistente que Russomano, pode dar trabalho, mas até outro dia estava junto ao atual prefeito e será difícil mostrar que é oposição a Haddad. Sem o voto de oposição, Marta não consegue decolar (apesar de que para ir ao segundo turno, a depender do cenário, ela não precisa subir muito).

5- O voto útil deve prevalecer.

O resumo é que durante a campanha dois candidatos tem maior potencial de crescimento: Haddad por ser incumbente e Dória, por ser desconhecido e representar o antipetismo. Além disso, os dois possuem muito mais tempo de TV/Rádio, um diferencial para promover o crescimento nas intenções de voto. Nesse momento deve prevalecer o voto útil para decidir a ida dos candidatos no segundo turno. Se polarizar, é muito provável que os outros candidatos virem coadjuvantes. No eleitorado mais à esquerda, deve ocorrer uma aposta em Haddad contra o crescimento de sua antítese, Dória. No eleitorado de direita, o antipetismo pode tomar forma na candidatura tucana, na medida em que Dória se mostrar mais hábil para vencer Haddad. Assim, a provável polarização entre Dória e Haddad favorece ambos, deslocando do debate os demais candidatos e, por consequência, fazendo a concorrência desidratar lentamente. A questão que ainda permanece é: com as mudanças que encurtaram o tempo de campanha eleitoral haverá tempo suficiente para esse movimento?


Jairo Pimentel Jr.

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