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27 de Julho de 2016, 16:00

A campanha eleitoral importa mais para os incumbentes que mais precisam dela.

É algo lógico e esperado que governos tendam a se beneficiar da comunicação ocorrida durante o período de campanha eleitoral e aumentar o seus patamares de aprovação na opinião pública e, dessa forma, melhorarem a possibilidade de seus incumbentes serem reeleitos (ver o post anterior - http://www.appconsult.com.br/artigos/as-chances-de-reeleicao-de-haddad). Mas será isso verdade? Será que isso vale para todos os casos?

Tomando apenas uma amostra por conveniência de 44 capitais, nas últimas 4 eleições (2000-2012) onde o incumbente buscou se reeleger, temos uma melhora média de apenas 3 pp. de avaliação de governo ao fim do primeiro turno, passando de 49% para 52% de ótimo/bom. Apesar de poucos casos, é possível inferir que se trata de um aumento bastante tímido e decepcionante, pensando no esforço realizado pelos candidatos para alcançá-lo.

Na maioria dos casos observados pode-se constatar um aumento: em 25 eleições ao menos um ponto percentual foi elevado na avaliação de governo, sendo que em 20 casos acima de 4 pp. Já em 11 desses pleitos houve decréscimo de avaliação, sendo que em 7 casos acima de 4pp. Em outros 6 casos o saldo foi zero. Esses números podem ser vistos na tabela abaixo:

Entretanto, analisando esses incrementos por faixa de avaliação de governo pode-se notar algo interessante: governos com menor avaliação tendem a ter um aumento mais expressivo, enquanto governos melhor avaliados tendem a ter dificuldades de incrementar a aprovação por meio da campanha eleitoral, ao contrário, observa-se inclusive quedas nessa aprovação (muito provavelmente derivada de excesso de ataques dos adversários).

Na tabela abaixo pode-se observar a distribuição desse aumento, do saldo entre antes e depois da campanha e o nível de avaliação de governo antes da campanha começar. Assim, observa-se que até 45% de ótimo/bom a variação média da avaliação de governo depois da campanha foi de 7 pp. enquanto que para patamares acima de 45%, essa variação foi negativa em 1 pp. em média.

Para avaliar esses dados de forma a testar essa hipótese, foi gerado um modelo de regressão linear entre avaliação de governo (Ótimo/Bom) e o saldo entre avaliação antes e depois da campanha. Tal como pode ser observado, na tabela abaixo essa hipótese é comprovado pelo modelo. Apesar de um erro padrão elevado e de um baixo R2 , o índice de regressão é estatisticamente significante (a 0,05) e negativo, mostrando que quanto maior a avaliação de governo, menor o saldo entre a avaliação de governo antes da campanha e depois da campanha.

Ao que tudo indica, quando se chega a um patamar elevado de avaliação, a campanha não consegue (ou pouco consegue) vencer a resistência do eleitorado em relação aos governantes. Assim, quanto maior a aprovação, maior a energia necessária para se incrementar a avaliação de um governante. Temos assim, uma tendência das campanhas oferecem ganhos marginais decrescentes de aprovação até, inclusive, se observar perdas de aprovação do incumbente quando a avaliação passa de 60% de ótimo/bom (antes do início da campanha), tal como pode ser visto no gráfico abaixo.

Conclui-se assim que quanto menor a avaliação do governo atual, maior a tendência de  ganho oferecido pela campanha. Essa conclusão oferece algum alento a incumbentes que hoje não estão bem avaliados, como Haddad em São Paulo (para retomar o tópico do post anterior), que possui apenas 12% de Ótimo/Bom e potencialmente pode alcançar mais 12,5 pp., segundo esse modelo: 15,541+ (-0,257*12)= 12,5. Dessa forma, Haddad pode chegar a 25% de Ótimo/Bom ao fim do primeiro turno de campanha, o que melhora consideravelmente suas chances de, pelo menos, ir ao segundo turno.

Por outro lado, quem chega bem avaliado não corre muitos riscos de perder. Patamares elevados de avaliação (acima de 45% de ótimo/bom) credenciam à reeleição mesmo com eventuais perdas de aprovação durante o período de campanha. De fato, nenhum incumbente dessas capitais estudadas que iniciaram a sua campanha com patamar acima de 43% de ótimo/bom perderam seus pleitos.

Assim, a campanha parece importar mais para aqueles incumbentes que chegam com patamares muito baixos ou moderados de avaliação, enquanto que para patamares mais elevados a contribuição da campanha para melhorar o desempenho da avaliação de governo é na média mais tímida, sendo muitas vezes até negativa. Dessa forma, a campanha eleitoral parece importar mais justamente para os incumbentes que mais precisam dela.


Jairo Pimentel Jr.

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